Marrocos na estreia: por que o adversario do Brasil em 13/06 nao e mais o coadjuvante de antigamente

O sorteio da FIFA, em dezembro, entregou ao Brasil o que parecia um presente razoavel no Grupo C: Marrocos, Haiti e Escocia. Em outra epoca, a leitura terminaria por ai. Marrocos seria descrito como o time africano competitivo e organizado, daqueles que dao trabalho mas raramente impoem condicoes. Acontece que essa epoca acabou no Catar, em 2022, quando a selecao comandada entao por Walid Regragui chegou as semifinais derrubando Belgica, Espanha e Portugal em sequencia. O Brasil estreia contra esse Marrocos no dia 13 de junho, no MetLife Stadium, em New York/New Jersey, e seria insensato encarar o jogo como aquecimento.

A trajetoria recente importa nao por nostalgia, mas porque o nucleo daquela campanha historica continua de pe. Marrocos nao foi um caso isolado: confirmou o crescimento no Africa Cup of Nations seguinte, manteve estrutura, manteve treinador, manteve identidade. Quando o Brasil entrar em campo na estreia, vai encarar um adversario que ja sabe ganhar contra europeus, que ja eliminou favoritos em mata-mata e que, sobretudo, nao tem nenhum tipo de complexo de inferioridade diante de selecoes sul-americanas.

Estilo de jogo e tradicao

Marrocos sempre teve, mesmo nas geracoes mais modestas, uma certa elegancia tecnica herdada da escola francesa de formacao. A diferenca da virada para esta decada e que a base tecnica passou a vir acompanhada de algo que historicamente faltava: musculatura competitiva, organizacao defensiva milimetrica e capacidade de sustentar planos de jogo por noventa minutos sem se desfigurar emocionalmente.

Sob Regragui, o time se firmou como uma equipe de bloco medio-baixo bem ajustado, que cede a posse com naturalidade contra adversarios tecnicamente superiores, mas que nao abre mao da bola quando se sente em condicao de impor ritmo. A linha de tres ou quatro defensores se comporta com disciplina rara, as transicoes saem rapidas pelos corredores e a saida de bola, quando pressionada, costuma encontrar refugio nos volantes que recebem de costas para o gol e giram bem.

O dado tatico mais importante para o Brasil prestar atencao e este: Marrocos defende em compactacao horizontal estreita, fecha o meio com tres linhas proximas e empurra o adversario para os flancos, onde ataca o portador com dois homens. Foi assim que sufocou Portugal, foi assim que neutralizou Espanha. Para o Brasil, que costuma criar pelos corredores e depende de combinacoes de meio-campistas adiantados, esse modelo impoe um quebra-cabeca especifico.

Pecas-chave

Qualquer leitura do Marrocos comeca por Achraf Hakimi. Lateral-direito do Paris Saint-Germain, e provavelmente o atleta mais decisivo da geracao africana atual. No esquema marroquino ele cumpre funcao hibrida, abrindo a equipe quando ha posse e fechando como terceiro zagueiro em momentos de retracao. Pelo seu lado, qualquer descuido de marcacao vira contragolpe.

No meio, Sofyan Amrabat continua sendo o coracao do time. E o volante que ganha duelos, antecipa lances e oferece a base de protecao para a defesa subir alguns metros. Em 2022 foi um dos jogadores mais regulares do torneio. Hakim Ziyech, quando convocado e em ritmo, ainda e o canhoto criativo que pode decidir partidas em bola parada e em chutes de fora da area.

No ataque, Youssef En-Nesyri e a referencia de area, forte no jogo aereo e habil no movimento de ataque ao primeiro poste. Brahim Diaz, que optou por defender o pais do pai, agregou qualidade tecnica entre linhas e tem sido usado como solucao para abrir defesas fechadas. No gol, Yassine Bounou entregou no Catar uma das melhores atuacoes em Copas das ultimas decadas e segue como um goleiro de confianca incomum para defender penaltis e bolas paradas.

O conjunto, mais do que cada nome, e o que pesa. Marrocos joga como time. Nao depende de momento individual extraordinario para se sustentar, e isso e o que mais o aproxima do perfil de selecao moderna que faz mata-mata.

Onde o Brasil pode machucar

Se Marrocos defende compacto pelo meio e empurra para os lados, o Brasil precisa atacar exatamente nos lados, mas com criterio. Ataque pelo flanco sem terceiro homem chegando vira presa facil dos dois marcadores marroquinos. A solucao passa por sobrecarga de corredor: lateral, ponta e meia interior atacando a mesma faixa, criando situacao de tres contra dois.

Ha tambem o espaco nas costas da linha defensiva quando o Marrocos sobe para pressionar saida de bola. Nao acontece com frequencia, mas acontece. Quando o adversario aposta na pressao alta para forcar erro, abre corredor para infiltracao de meia ou centroavante que ataca a profundidade. O Brasil que melhor jogou nos ultimos ciclos foi justamente o que tinha capacidade de quebrar linhas com passe vertical curto, do volante para o meia entre linhas.

Bola parada ofensiva e outro capitulo. Marrocos defende escanteios e faltas laterais com homens, nao com zona. Movimentacao de bloco e atrito fisico nas areas favorecem times que tenham forca aerea, e o Brasil costuma ter pelo menos tres referencias de area em campo.

Onde o Brasil pode sofrer

O risco maior nao esta no Marrocos com a bola, mas no Marrocos sem ela. A organizacao defensiva e o tipo de virtude que mata jogo: se o Brasil nao consegue furar o bloco nos primeiros vinte minutos, comeca a se alongar, abre espacos entre setores e expoe a transicao defensiva, que historicamente e o calcanhar de Aquiles das nossas selecoes desde 2014.

Marrocos sai jogando em transicao com tres ou quatro toques apenas. Hakimi pelo lado, Ziyech ou Brahim Diaz pelo meio, En-Nesyri buscando profundidade. Sao quatro segundos da recuperacao ao chute. Se Marquinhos e o segundo zagueiro nao estiverem perfeitamente posicionados, e se os volantes brasileiros nao cobrirem a saida dos laterais que sobem, o problema vira recorrente.

O outro ponto sensivel e o emocional. Marrocos joga sem peso de favoritismo, com publico arabe e africano forte nos Estados Unidos, e tem todo o interesse em transformar a estreia do Brasil em jogo travado, fisico, de poucas chances. Selecao brasileira em estreia de Copa historicamente comeca ansiosa. Basta lembrar de 2014 contra a Croacia, ou de 2022 contra a Servia, jogos resolvidos com dificuldade. Marrocos e adversario tecnicamente superior aqueles dois.

Leitura do confronto

Nao se trata de prever placar, mas de admitir o que o jogo realmente e. Brasil contra Marrocos em 2026 nao se parece com Brasil contra Camaroes em 1994 ou contra Costa do Marfim em 2010. Aproxima-se mais, em grau de dificuldade real, daquele Brasil e Belgica de 2018: adversario organizado, com geracao madura, treinador que sabe o que esta fazendo e jogadores acostumados a Champions League. A diferenca e que aqui o Brasil ainda e tecnicamente superior em peca por peca. A questao e se essa superioridade individual vai conseguir se traduzir em superioridade coletiva diante de um time que faz da disciplina coletiva sua identidade.

O equilibrio do confronto, portanto, depende menos de quem tem mais talento e mais de quem conseguir impor seu plano. Se o Brasil joga em ritmo proprio, com paciencia para girar a bola e atacar com criterio, o favoritismo se sustenta. Se aceita o jogo fisico, o jogo de transicao, o jogo emocional que Marrocos prefere, a estreia pode virar a primeira grande dor de cabeca do ciclo.

Em estreia de Copa, o adversario que voce respeita e o que voce vence. O que voce subestima e o que te elimina antes do tempo. Marrocos, em 2026, pertence claramente ao primeiro grupo, e nao ao segundo. A comissao tecnica brasileira sabe disso. O torcedor que ainda olha o sorteio com sorriso de alivio talvez ainda precise se atualizar.