O 11 provável da estreia: a aposta de Ancelotti contra o Marrocos
A convocação anunciada em 18 de maio terminou com a sensação de que Carlo Ancelotti escolheu uma lista racional, sem afagos públicos, sem nomes-surpresa para vender manchete. Os 26 saíram numa toada de quem já sabe, há semanas, qual time vai pôr em campo na estreia contra o Marrocos. A reflexão honesta, três semanas depois, é menos sobre quem está fora e mais sobre como esse italiano de fala mansa vai costurar a primeira escalação de uma Seleção que herdou desorientada e precisa devolver competitiva.
O contexto que pesa no quadro-negro
Ancelotti chega ao posto com o capital simbólico de quem ganhou tudo em clubes e a desvantagem de quem nunca treinou seleção. Não é detalhe menor. O cargo de selecionador exige outra gramática: menos repetição diária, mais leitura de momento, mais política interna. O treinador italiano tem, no entanto, uma virtude que combina com o problema brasileiro recente — sabe transformar grupos de craques em times. A Seleção que recebeu de Dorival, e antes dele de Diniz, vinha tropeçando em uma identidade que oscilou entre o saudosismo da posse e o pragmatismo do contra-ataque sem dono.
O Marrocos, adversário da estreia, não é a República Tcheca de 1962 nem a China de 2002. É a equipe que eliminou Espanha e Portugal no Catar, que chegou às semifinais e que, mesmo com renovação parcial, ainda joga em bloco médio com transições verticais agudas. Subestimar essa estreia seria repetir, em escala menor, o erro de 2014 contra o Chile nas oitavas — confiar que o nome do escudo basta.
O gol e a defesa: poucas dúvidas
No gol, Alisson segue sendo escolha natural. Em sua fase no Liverpool tem sido referência mundial na posição e mantém a hierarquia construída desde 2018. Ederson, com bola no pé, é a alternativa que Ancelotti pode usar contra adversários que recuam em bloco baixo, mas não para uma estreia em que o Brasil precisará defender transições. Weverton fica como terceiro, papel que cumpre com profissionalismo desde 2022.
A linha de quatro é onde Ancelotti faz a primeira aposta política e tática. Marquinhos como capitão e zagueiro de saída, ao lado de Gabriel Magalhães, sinaliza um eixo central que combina leitura e velocidade. O zagueiro do Arsenal vinha sendo subutilizado em ciclos anteriores e ganhou peso na nova hierarquia. Bremer aparece como primeira reserva imediata, com Ibañez e Léo Pereira completando o setor.
Nas laterais, a escolha provável é Wesley pela direita e Douglas Santos pela esquerda. Wesley, do Flamengo, representa uma decisão clara de Ancelotti: privilegia o lateral que ataca o espaço e dribla pela linha, não o que se converte em terceiro zagueiro. Pela esquerda, a opção por Douglas Santos é menos óbvia — Alex Sandro é nome de inventário, Danilo joga improvisado — mas faz sentido contra um Marrocos que ataca pelas pontas com Hakimi e companhia. Sobra equilíbrio, falta nome de outdoor. Aqui mora uma das diferenças mais nítidas em relação a 2022, quando Tite insistiu em Alex Sandro até a lesão, e a 2018, quando Marcelo já chegou desgastado.
O meio-campo: a primeira aposta de fato
Se há um setor em que Ancelotti vai exercer autoria, é o miolo. A leitura mais provável é um trio com Casemiro como volante de contenção, Bruno Guimarães como volante box-to-box e Lucas Paquetá como meia mais avançado. É uma combinação que mistura experiência, pulmão e qualidade de último passe.
Casemiro continua sendo a única referência de proteção da zaga que o Brasil tem em estoque. Pode-se debater o desgaste, a velocidade que cede aos trinta e poucos, mas não há substituto à altura no atual grupo. Fabinho funciona como plano B claro, e essa redundância — dois volantes de contenção de carreira europeia — sugere que Ancelotti pretende, sim, jogar com um cinco na frente da defesa contra adversários fortes.
Bruno Guimarães é a peça que cresceu no ciclo. O volante do Newcastle dá ao Brasil algo que faltou em 2018 e 2022: um meio-campista que recupera, conduz e chega à área. Paquetá no papel de meia avançado é decisão de risco calculado. Não é o camisa 10 clássico, não é Kaká nem Ronaldinho. É um jogador de meio-campo híbrido, que ocupa o espaço entre linhas e finaliza de fora. Combina com a ideia de Ancelotti de ter, no setor, alguém que ligue construção e ataque sem precisar de bola parada nos pés.
O ataque: Vini, Raphinha e o nome do meio
Pelas pontas, dois nomes não admitem discussão. Vinícius Júnior pela esquerda e Raphinha pela direita formam o par ofensivo que melhor representa o momento da Seleção. Vini chega como referência ofensiva do ciclo, Raphinha vive fase consistente no Barcelona e tem a qualidade de bola parada que o Brasil precisa em torneio curto.
O nome do centro do ataque é a discussão real. Ancelotti tem quatro caminhos:
- Matheus Cunha como centroavante móvel, que troca posição com os pontas e abre espaço.
- Igor Thiago, opção de área, referência fixa, ideal contra defesas baixas.
- Endrick, o jovem que carrega o peso da renovação e tem instinto de finalização raro.
- Neymar como falso nove, função que ocuparia para liberar a chegada de Paquetá.
A aposta mais provável para a estreia, e essa é a leitura editorial deste ensaio, é Matheus Cunha. Ele combina mobilidade, força física para segurar zagueiros marroquinos rústicos e capacidade de finalização com as duas pernas. Endrick deve entrar na segunda metade, num roteiro parecido com o que Tite ensaiou com Richarlison em 2022 antes de promovê-lo a titular. Neymar, o assunto mais espinhoso da convocação, deve começar no banco — não por punição, mas por gestão de minutos numa estreia que tende a ser travada.
O onze provável
Costurando as escolhas acima, o quadro fica assim:
- Alisson
- Wesley
- Marquinhos
- Gabriel Magalhães
- Douglas Santos
- Casemiro
- Bruno Guimarães
- Lucas Paquetá
- Raphinha
- Matheus Cunha
- Vinícius Júnior
É um 4-3-3 que pode virar 4-2-3-1 com Paquetá adiantado, e que se fecha como 4-5-1 sem a bola, com Vini e Raphinha recompondo a linha de cinco. Pragmático, europeu na concepção, brasileiro no elenco. A pergunta legítima é se isso basta para vencer um Marrocos que joga organizado e tem o vestiário ainda embalado pelo Catar.
O que essa escalação diz sobre o projeto
A escalação provável carrega três mensagens. A primeira é que Ancelotti não veio recriar o Brasil de 1982 nem o de 2002 — veio construir um time que defenda bem e ataque com os indivíduos certos no espaço certo. A segunda é que a hierarquia foi redefinida: Vini, Raphinha e Bruno Guimarães são os pilares do ciclo, não Neymar, que entra agora como ativo de luxo do banco. A terceira é que o italiano aceita a crítica de ser conservador na estreia em troca de não repetir o vexame de 2014 contra a Alemanha, quando Felipão escalou um time emocional e desarmou a defesa.
O Brasil chega em 2026 com menos brilho individual do que em 2002 e menos saudosismo do que em 2014. Talvez seja, finalmente, o ponto de equilíbrio. Vencer o Marrocos na estreia, com solidez defensiva e dois ou três lampejos dos pontas, já seria um sinal de que Ancelotti entendeu o que recebeu. O resto da Copa pode ser construído a partir dali.
A escalação de uma estreia raramente é a melhor escalação do torneio. É a escalação que o treinador acredita que sobrevive ao primeiro impacto. Ancelotti, ao que tudo indica, escolheu sobreviver com inteligência.