Alex Sandro na Copa 2026: a aposta de Ancelotti na experiência pelo lado esquerdo

Quando Carlo Ancelotti leu o nome de Alex Sandro na convocação desta segunda-feira, dia 18 de maio, fechou um debate que se arrastava desde que assumiu a Seleção. O lateral-esquerdo do Flamengo, hoje com a camisa 6, é a escolha menos romântica e provavelmente a mais coerente com o que o italiano costuma pedir do setor: leitura, posicionamento e zero ansiedade com a bola. Não é a aposta de uma geração nova nem o veredicto definitivo sobre uma posição que o Brasil não resolve com tranquilidade desde Roberto Carlos. É, antes, uma decisão de engenheiro — funcional, defensável, conservadora no melhor sentido da palavra.

A presença dele na lista diz duas coisas ao mesmo tempo. A primeira é que Ancelotti, depois de testar caminhos mais ousados pelo lado esquerdo nos amistosos do ciclo, voltou a priorizar o repertório de quem já jogou Copa, Champions e finais decididas nos detalhes. A segunda é que o trabalho de Alex Sandro no Flamengo, desde que voltou ao Brasil, convenceu mais pela consistência do que pelos lampejos. Em um elenco em que faltam laterais-esquerdos com vivência europeia recente, ele é a opção que oferece o menor desvio padrão.

O que ele entrega

O traço mais subestimado de Alex Sandro sempre foi a leitura de jogo defensiva. Ele defende mais antecipando do que disputando, fecha o corredor com o corpo antes de chegar ao desarme e raramente é pego em transição porque entende quando segurar e quando avançar. Em um time que joga com três zagueiros, é praticamente um ala híbrido; em linha de quatro, é um lateral que prefere a diagonal curta ao apoio largo. Ancelotti, que historicamente protege seus laterais com volantes posicionais, deve gostar exatamente disso.

No ataque, a contribuição mudou com a idade, e ele soube se adaptar. Não é mais o jogador que ganha a linha de fundo no um contra um — quando muito faz isso uma ou duas vezes por jogo. Em compensação, ganhou maturidade no terceiro homem, virou um passador competente de média distância e aprendeu a escolher melhor o momento de entrar entre as linhas. Joga com o pé esquerdo de um canhoto verdadeiro, o que significa que abre o corpo com naturalidade para o cruzamento na primeira trave e para a inversão longa em diagonal, dois recursos que a Seleção tem usado pouco no ciclo.

Há também o aspecto que não aparece em planilha: gestão de vestiário em Copa do Mundo. Alex Sandro chegou à Seleção como reserva imediato de Marcelo no ciclo de 2018, conviveu com pressão de elenco em Turim por quase uma década e entende perfeitamente o que significa ser titular um jogo, banco no outro e voltar a entrar no terceiro sem reclamar publicamente. Para um treinador como Ancelotti, que constrói grupo na conversa e não no discurso, esse tipo de jogador vale como extensão da comissão técnica.

O que pode pesar contra

A idade é o argumento mais óbvio e o menos interessante. O que importa de fato é o histórico recente de lesões musculares, que o acompanhou nas últimas temporadas na Europa e que ainda exige gestão de carga no Flamengo. Em uma Copa disputada em três sedes, com viagens longas entre cidades dos Estados Unidos, do México e do Canadá, o desafio físico não é trivial — e Ancelotti sabe que pode precisar dele em jogos quentes, daqueles em que o intervalo entre partidas cai para três dias.

O segundo ponto é mais tático do que físico. Contra adversários que jogam com extremo aberto, veloz e direto — perfil que cresceu no futebol europeu e que aparece em quase todas as seleções competitivas hoje —, Alex Sandro depende muito de cobertura. Se o time do Brasil for obrigado a defender em campo aberto, sem o segundo volante por perto, ele vira alvo natural. Não é coincidência que seus melhores jogos sempre foram em equipes que defendem em bloco médio, próximas da linha do meio-campo.

Onde ele está no clube

No Flamengo, Alex Sandro se acomodou rápido. Chegou recebendo a camisa 6, símbolo carregado para qualquer lateral-esquerdo do clube, e foi tratado desde o primeiro dia como referência de posição. Vem sendo utilizado como titular em uma estrutura que alterna linha de quatro tradicional com construção em três, e em ambas as variações tem entregue o que se espera: regularidade, poucas faltas em zonas perigosas e relação saudável com o meio-campo.

O ponto sensível continua sendo o calendário brasileiro, que castiga jogadores de mais de trinta anos com viagens longas e gramados irregulares. A comissão do Flamengo o tem poupado em jogos pontuais, e essa gestão criteriosa parece ter sido decisiva para que ele chegasse à janela da Copa em condição competitiva. Ancelotti, ao convocar, está endossando indiretamente esse cuidado.

Como Ancelotti deve usar

O cenário mais provável é o de um titular pragmático no início da Copa, com a opção de transição para reserva qualificado conforme o time se firmar. Em um 4-3-3 com volante de proteção, Alex Sandro joga como lateral clássico, equilibrando a subida com o ponta do mesmo lado. Em um 4-2-3-1 com Estêvão ou Vinícius pela esquerda, ele tende a ser usado como apoio mais recuado, liberando o atacante para flutuar e atacar diagonais.

Há ainda a possibilidade de Ancelotti recorrer à linha de três zagueiros em jogos específicos — sobretudo contra seleções europeias de meio-campo forte, em que o italiano gosta de adicionar um homem na construção. Nesse desenho, Alex Sandro é o ala esquerdo natural, com mobilidade reduzida na frente, mas com cobertura adicional do terceiro zagueiro. É um papel que ele já exerceu na Juventus e em parte da carreira na Seleção, e que combina com o que oferece hoje. A leitura é que ele dificilmente jogará os sete jogos inteiros, mas será peça em pelo menos quatro ou cinco — algo entre a função de capitão silencioso e o que se costuma chamar, no jargão italiano, de jolly defensivo.

Não é uma escolha que entusiasma quem queria ver a Seleção renovar o lado esquerdo de uma vez. Mas é uma escolha que reconhece o tamanho da Copa, a fragilidade dos atalhos e o peso de ter, no setor mais sensível do campo, um jogador que já viu tudo. Em 2002 o Brasil ganhou com um lateral-esquerdo que ninguém apostava ser titular no início, e em 2014 perdeu em parte por não ter alternativa madura para Marcelo. Ancelotti, que assistiu a essas duas histórias de longe, parece ter escolhido o caminho do meio. Alex Sandro vai para o Mundial não como protagonista, mas como o tipo de coadjuvante que treinador campeão sempre faz questão de levar.