Casemiro na lista de Ancelotti: o último voto de confiança ao volante de ofício
A convocação anunciada por Carlo Ancelotti em 18 de maio trouxe poucas surpresas e uma resposta. Casemiro está na lista. Aos 34 anos, com a camisa 5 nas costas e um Manchester United em reconstrução permanente, o volante segue sendo, para o italiano, a tradução em campo de uma ideia simples: a seleção brasileira precisa de alguém que saiba estar parado. Não no sentido literal, evidentemente, mas no sentido de quem ocupa o espaço certo antes que o adversário pense em explorá-lo.
É uma escolha que divide a opinião pública e que, justamente por isso, diz muito sobre o projeto de Ancelotti. Em uma seleção que tem hoje volantes mais móveis, mais verticais e fisicamente em outro patamar, a manutenção de Casemiro é menos uma homenagem e mais um cálculo. Um cálculo que pode dar certo ou virar o nó de todas as discussões pós-Copa, dependendo do roteiro.
O que ele entrega
Casemiro joga uma posição que praticamente desapareceu no futebol europeu de elite, ou pelo menos foi reinterpretada por outros nomes. O volante de proteção pura, que lê a trajetória da bola antes do passe sair, que antecipa o terceiro homem, que decide quando saltar a linha e quando ficar, é uma figura escassa. O brasileiro construiu carreira justamente nesse ofício, e o ofício, ao contrário da explosão muscular, envelhece bem.
O que ele entrega à seleção é, antes de tudo, uma noção de posição que poupa o restante do time de correr atrás do próprio rabo. Em uma equipe com Vinícius Júnior, Rodrygo e laterais agudos, alguém precisa fechar a porta. Casemiro fecha. Faz a falta tática quando ela é necessária, sem hesitar, e aceita o amarelo como custo operacional. É uma característica que o Brasil sentiu falta em 2014, teve em 2018 com Fernandinho ainda em forma e em 2022 perdeu cedo demais quando o próprio Casemiro saiu do jogo com a Croácia já desidratado de opções.
Há ainda o que costuma ser subestimado: o jogo aéreo defensivo em escanteios e o repertório de passe curto, sem invenção, que sustenta a primeira saída. Em uma seleção que tende a empilhar criadores no terço final, ter um meio-campista que aceita o passe de cinco metros para o lado, sem firula, é um luxo discreto. Ancelotti sabe disso por experiência própria. Foi o técnico que mais usou Casemiro no Real Madrid durante o ciclo das Champions, e a relação é antiga.
O que pode pesar contra
O argumento dos críticos é honesto e tem fundamento. Casemiro não é mais o jogador de 2018. A perna que cobria trinta metros em três segundos hoje cobre vinte e cinco em três e meio, e isso, no futebol moderno, é uma eternidade. Contra times europeus que jogam em transição rápida com meias chegando da segunda linha, há um risco real de ser superado em duelo individual longe da própria área. Foi o que aconteceu em alguns dos piores momentos do United na temporada recente, em que ele apareceu isolado num espaço que antes conseguia administrar.
Há também o histórico físico. Volantes que jogam por choque acumulam desgaste de outra ordem, e Casemiro vem de temporadas em que a Premier League cobrou pedágio. Ancelotti aposta que o calendário da seleção, com jogos espaçados e sem necessidade de partir para cima nos noventa minutos, vai permitir uma versão administrada. É uma aposta razoável, mas é uma aposta.
Onde ele está no clube
O Manchester United da última temporada foi um time em busca de identidade, e Casemiro acabou sendo termômetro de algo maior. Quando o time conseguia jogar com bloco médio e linhas curtas, ele rendia. Quando o United era obrigado a defender campo aberto, em transições longas, ficou exposto. Não é uma questão exclusiva sua, é uma questão sistêmica do clube, mas o desgaste de imagem recai sobre quem está visível no eixo central.
Mesmo assim, manteve o posto de titular em boa parte da temporada e seguiu como referência de vestiário. Em Old Trafford, virou um nome que carrega o peso simbólico de representar a transição entre o United pós-Ferguson e a tentativa atual de reconstrução. Para a seleção, o que interessa é o seguinte: ele chegou à convocação jogando regularmente em alto nível competitivo, sem ter passado a temporada como reserva. Isso, em um ciclo em que a forma física é a maior incógnita, importa.
Como Ancelotti deve usar
O italiano não escondeu, desde que assumiu, a preferência por um meio-campo com referência defensiva clara. As variações que se desenham nos treinamentos apontam para um 4-3-3 com Casemiro como volante único em alguns cenários e um 4-2-3-1 com duplo pivô em outros, sobretudo contra adversários que jogam com três meias por dentro. No primeiro desenho, Casemiro é o ponto fixo que libera os dois meias à frente para chegar à área. No segundo, divide responsabilidades com um companheiro mais móvel, e essa parece ser a fórmula que Ancelotti planeja para os jogos mais duros do mata-mata.
O que se espera, no plano tático, é uma seleção que aceita ter menos posse contra adversários técnicos e aposta na verticalidade dos pontas. Para esse modelo funcionar, o meio-campo defensivo precisa ler bem o segundo balão, controlar a bola que sobra e iniciar a transição sem pressa. É exatamente o cardápio que Casemiro vem oferecendo há mais de uma década. Não é coincidência que o ciclo recente da seleção, ainda sob outros comandos, tenha sofrido quando ele esteve fora do jogo. A questão, agora, é se aos 34 ele consegue sustentar esse papel em sete partidas eventuais até a final, em um Mundial disputado em três países e com logística cansativa.
O voto de confiança
Manter Casemiro é, em última instância, uma declaração de método. Ancelotti não está construindo a seleção mais jovem possível, nem a mais espetacular no sentido estético. Está construindo uma seleção que entende a importância de não perder jogos antes de tentar ganhá-los. Casemiro é peça desse alicerce. Pode não jogar todos os minutos, pode dividir a posição em fases específicas, mas estará lá quando o jogo pedir alguém que saiba o que fazer com a bola que ninguém vê. Se for a última Copa dele, é também a Copa em que a função que ele representa, mais do que ele próprio, será testada como conceito. E é nesse ponto que a convocação se torna interessante.