Roger Ibañez na Copa de 2026: o zagueiro saudita que Ancelotti foi buscar pela leitura
A presença de Roger Ibañez na lista de Carlo Ancelotti para a Copa do Mundo de 2026 é, antes de qualquer coisa, uma escolha de leitura. O italiano não foi atrás de um zagueiro de cartaz, daqueles que carregam contratos milionários na Premier League ou que dominam manchetes na Champions. Foi atrás de um defensor que entende espaço, que sabe quando subir a linha e quando recuar, e que joga com a bola limpa nos pés. Em uma seleção que vai precisar reorganizar a base depois de duas Copas sofridas na defesa, esse perfil tem valor de mercado próprio, independentemente do clube em que o jogador atua.
A escolha também tem um subtexto difícil de ignorar: Ancelotti, que conhece Ibañez do tempo em que cruzou com ele na Itália, está dizendo que a camisa 13 não é mais um prêmio de consolação para o zagueiro brasileiro que joga fora do eixo europeu. O técnico foi buscar quem está jogando bem agora, com regularidade, e quem se encaixa no jeito que ele quer defender — uma linha alta, agressiva, com responsabilidade individual nos duelos. A Arábia Saudita virou um detalhe geográfico. A função no time é que importa.
O que ele entrega
Ibañez é um zagueiro de leitura antecipada, não de explosão pura. Ele resolve antes da bola chegar, o que é uma qualidade rara e subestimada no futebol brasileiro, historicamente apaixonado por zagueiros que ganham no carrinho e no peito do pé. Em vez de esperar o atacante girar e brigar de igual para igual, ele lê o passe que vem do meio-campo, ajusta a posição um ou dois passos antes e neutraliza a jogada sem precisar de heroísmo. É uma defesa silenciosa, daquelas que o torcedor quase não percebe na transmissão.
O segundo traço é a saída de bola. Ibañez não é um zagueiro que apenas tira; ele constrói. Tem passe curto seguro para o volante e passe vertical para quebrar linhas, atributo que Ancelotti exige de qualquer defensor que jogue na sua linha de quatro ou de três. Em uma seleção que tradicionalmente sofre quando é pressionada na saída — basta lembrar os apuros contra a Bélgica em 2018 e contra a Croácia em 2022 —, ter um zagueiro que recebe sob pressão e devolve com critério é mais que conforto, é uma peça estrutural.
O terceiro ponto, talvez o mais subestimado, é a versatilidade. Ibañez já jogou como zagueiro central na linha de três, como central pelo lado direito numa linha de quatro e, em emergências, como lateral. Essa flexibilidade é exatamente o tipo de coisa que Ancelotti valoriza em jogador de seleção, onde o elenco precisa absorver mudanças de esquema sem reescrever o trabalho da semana.
O que pode pesar contra
O argumento mais óbvio contra Ibañez é o nível da liga. A Saudi Pro League cresceu em investimento e em nomes, mas ainda está longe da intensidade tática e da velocidade de decisão da Premier League, da Bundesliga ou da própria Champions. Há um risco real de que o zagueiro chegue à Copa sem ter sido testado, em ritmo de jogo, contra atacantes do calibre dos que vai enfrentar a partir das oitavas. É um risco que Ancelotti decidiu correr, mas é um risco que existe e que vai ser cobrado se a primeira falha aparecer em momento ruim.
Há também a questão da hierarquia. Ibañez não chega como titular cravado. Chega disputando posição com nomes mais badalados, e a história recente da seleção mostra que zagueiros que entram para completar elenco raramente terminam o torneio como protagonistas — basta lembrar o ostracismo de bons defensores em 2014 e 2018 que foram convocados e mal viram o gramado. O desafio para ele é convencer durante as três semanas de preparação, não no jogo de estreia.
Onde ele está no clube
No Al-Ahli, Ibañez tem ocupado uma vaga central na zaga e divide a responsabilidade defensiva com companheiros de bom nome. O clube saudita montou um projeto ambicioso e o brasileiro entrou como peça de hierarquia, não como reforço de currículo. Tem sido referência na construção a partir do campo de defesa e nas bolas paradas defensivas, dois fundamentos que Ancelotti observa de perto quando avalia zagueiros para a seleção.
O ponto importante aqui é que ele não está num clube em decadência nem num time que apenas se defende. O Al-Ahli joga, propõe, e exige do zagueiro central exatamente o conjunto de tarefas que a seleção vai exigir: linha alta, antecipação e saída limpa. Em termos de transferência de função, é dos cenários mais confortáveis possíveis. Não é o caso de um defensor que terá que reaprender a defender alto depois de meses jogando recuado.
Como Ancelotti deve usar
O cenário mais provável é Ibañez como terceiro zagueiro na hierarquia, entrando em rodízio na fase de grupos para preservar a dupla titular e ganhar protagonismo se houver lesão ou suspensão. Ancelotti gosta de variar entre 4-3-3 e 4-2-3-1, mas tem flertado com a linha de três em momentos específicos para liberar laterais como pontas. Em qualquer um desses desenhos, Ibañez se encaixa: na linha de quatro, é central pelo lado direito; na linha de três, é o central pelo lado direito que sobe para apoiar a construção quando o lateral vira ala.
Há um cenário tático específico em que ele é a primeira opção, não a terceira: contra adversários que jogam com um centroavante isolado e dois meias chegando pelos corredores, configuração comum entre seleções europeias médias. Nesse jogo, a leitura antecipada vale mais que o duelo físico, e Ibañez tende a render acima da média. Não seria surpresa vê-lo começando uma oitava ou uma quarta de final por decisão tática, e não por necessidade.
Fechamento
A convocação de Ibañez não é arroubo de Ancelotti nem aposta romântica. É uma decisão fria, baseada em função, encaixe e momento. Se ele vai responder à altura quando o jogo apertar é uma pergunta que só a Copa responde — e que vale para qualquer zagueiro convocado, do mais badalado ao menos lembrado. O que importa, agora, é que o italiano tirou do automático a ideia de que zagueiro brasileiro de seleção precisa jogar na Europa para merecer a vaga. É uma sinalização que vai além de Ibañez e que pode redesenhar como o Brasil monta sua zaga nos próximos ciclos.