Marquinhos na lista de Ancelotti: o capitao silencioso que sustenta a defesa do Brasil

Quando Carlo Ancelotti leu o nome de Marquinhos na convocacao do dia 18 de maio, ninguem no ambiente do futebol brasileiro esbocou surpresa. Havia um tipo raro de consenso em torno do zagueiro do Paris Saint-Germain, dificilmente reproduzivel em outras posicoes da Selecao. Marquinhos chega a Copa de 2026 como o jogador de linha mais experiente do grupo em mata-matas de alto nivel, e tambem como o homem que, apesar de carregar a faixa de capitao por boa parte do ciclo anterior, sempre rejeitou o protagonismo verbal que costumamos exigir de quem usa a camisa 4.

O caso de Marquinhos e curioso porque ele e, ao mesmo tempo, um jogador absolutamente conhecido e mal compreendido. Convive ha anos com a cobranca de erros decisivos em momentos pontuais, em especial o penalti perdido contra a Croacia em 2022, e mesmo assim chegou a Copa atual sem rival real para sua vaga. Ancelotti, que costuma valorizar zagueiros de leitura antes de velocidade, encontrou nele exatamente o perfil que pretende usar como espinha dorsal do time.

O que ele entrega

A primeira virtude de Marquinhos e tatica, nao fisica. Ele le a jogada antes de ela acontecer, ajusta a linha defensiva com gestos curtos e antecipa lancamentos em profundidade com uma regularidade que poucos zagueiros do mundo sustentam ha tanto tempo. Em uma era em que o zagueiro central virou um meio-campista a mais, ele sai jogando com naturalidade, troca passe curto sob pressao e arrisca a bola entrelinhas quando o adversario fecha as laterais. Nao e um construtor no sentido de um Stones ou um Rudiger trazendo a bola ate o meio, mas distribui com criterio e raramente entrega a posse em zonas perigosas.

Em duelos individuais, compensa a estatura mediana com timing. Ganha disputas aereas mais por posicionamento do que por explosao, e ja se mostrou capaz de marcar tanto centroavantes potentes do Big Six ingles quanto atacantes mais moveis da Champions. Em coberturas, e dos poucos zagueiros que ainda acerta o carrinho como ultimo recurso sem virar penalti ou cartao. Para uma Selecao que sofreu nas ultimas Copas com a transicao defensiva, esse repertorio importa mais do que o numero de desarmes por jogo.

Ha tambem o aspecto da lideranca. Marquinhos nao discursa, nao gesticula em excesso, nao briga com arbitros. Lidera pela presenca, por ser o primeiro a chegar e o ultimo a sair, por sustentar uma media de desempenho que dispensa explicacao. Em um vestiario que recebera jovens em sua primeira Copa, esse tipo de referencia silenciosa tende a pesar.

O que pode pesar contra

O ponto delicado, e seria desonesto ignorar, e o peso emocional acumulado. Marquinhos chega a sua quarta Copa do Mundo carregando a cicatriz de 2018 contra a Belgica, de 2022 contra a Croacia e de eliminatorias em que a Selecao sofreu mais do que o esperado. Ele nunca fugiu da responsabilidade, sempre apareceu para bater o penalti seguinte, sempre deu entrevista no dia seguinte ao tropeco. Mas Copa do Mundo cobra um tipo especifico de frescor mental, e essa e uma variavel que so o torneio mede.

Do ponto de vista fisico, o desgaste de mais de uma decada na elite europeia comeca a aparecer em jogos de altissima intensidade contra atacantes velozes em campo aberto. Nao e queda tecnica, e tributo do calendario. Em uma Copa disputada nos Estados Unidos, Canada e Mexico, com viagens longas e calor variavel, a gestao de minutagem dele sera tema dos primeiros dias de Ancelotti no comando.

Onde ele esta no clube

No Paris Saint-Germain, Marquinhos segue como referencia da zaga e usa a faixa de capitao ha varios anos, atravessando trocas de tecnico, ciclos de elenco e a saida de astros que dominaram a manchete enquanto ele sustentava o setor defensivo em silencio. O projeto recente do clube, mais coletivo e menos dependente de individualidades ofensivas, valorizou exatamente o tipo de zagueiro que ele e: aquele que organiza linha, comanda a saida de bola e nao perde a cabeca quando o time precisa segurar resultado.

Em termos de companheiros de setor, viveu fases em que jogou ao lado de zagueiros mais agressivos e fases em que precisou ser o agressivo da dupla. Essa flexibilidade interessa diretamente a Ancelotti, porque libera o tecnico para escolher o parceiro ideal sem precisar reinventar a funcao do capitao.

Como Ancelotti deve usar

O time de Ancelotti tende a se estruturar em um 4-3-3 classico, com possibilidade de virar 4-2-3-1 contra adversarios que cedem a posse. Em qualquer dos dois desenhos, Marquinhos e o zagueiro de leitura, o que recua um pouco mais e organiza, enquanto o parceiro avanca para encurtar espacos. E uma divisao de tarefas que ele ja executou no PSG e na Selecao em diferentes ciclos, e que dispensa periodo longo de adaptacao.

O ponto a observar e quem joga ao lado dele. Em um cenario com um zagueiro mais jovem e fisico, Marquinhos vira o cerebro do setor. Em um cenario com outro veterano, divide responsabilidades de saida de bola e ganha em segurranca, mas o time perde um pouco de explosao na linha. A escolha de Ancelotti nesse detalhe vai dizer muito sobre como ele pretende montar a fase de grupos, especialmente contra selecoes que apostam em transicoes rapidas. Outro ponto e a relacao com o volante mais defensivo, porque a primeira linha de protecao da zaga determina o quanto Marquinhos precisa subir para pressionar.

Fechamento

Marquinhos chega a 2026 como o jogador que melhor resume a contradicao desta Selecao: experiente sem ser saturado, conhecido sem ser unanime, criticado sem nunca ter perdido espaco. Para Ancelotti, e uma das poucas certezas do grupo, e talvez a mais importante. Em Copa do Mundo decidida em detalhes, ter um zagueiro central que comete poucos erros e quase um luxo, e o Brasil chega ao torneio com esse luxo a disposicao. Resta saber se, desta vez, o roteiro permite que ele saia do gramado pela porta da frente.