Martinelli na Copa de Ancelotti: o ponta de profundidade que o Brasil esqueceu como usar
Gabriel Martinelli chega a Copa do Mundo de 2026 carregando um paradoxo que define boa parte da sua carreira recente: e o ponta brasileiro mais ajustado ao futebol europeu de elite, e ao mesmo tempo o que precisou brigar mais para convencer a opiniao publica de que merecia estar no aviao. Ancelotti, ao incluir o camisa 19 do Arsenal na lista oficial divulgada em 18 de maio, fez uma escolha que diz menos sobre nostalgia ou modismo e mais sobre necessidade tatica. O Brasil precisa de um jogador que ataque o espaço entre o lateral e o zagueiro adversario em velocidade, e ha poucos no elenco que fazem isso com a naturalidade dele.
O que torna a convocacao interessante e o contexto. Martinelli nao chega como protagonista absoluto nem como aposta sentimental. Chega como peca funcional de um treinador italiano que, ao longo da carreira, sempre teve predileção por atacantes de banda capazes de atacar a profundidade sem precisar dominar o jogo. E ai entra o ponto que ninguem comenta: ele pode ser, na cabeca de Ancelotti, mais util do que parece a primeira vista.
O que ele entrega
A virtude central de Martinelli e a leitura do momento da arrancada. Ele entende quando o zagueiro adversario esta com o peso no calcanhar, quando o lateral subiu demais, quando o meia central abriu a linha de passe vertical. Em vez de pedir a bola no pe, ele se movimenta para receber em condicao de correr de frente. Esse detalhe, aparentemente menor, define o tipo de ponta que ele e: um atacante de transicao, nao um construtor.
No Arsenal de Arteta, esse perfil foi lapidado dentro de um sistema que exige tambem trabalho defensivo. Martinelli aprendeu a fechar o corredor esquerdo, a dobrar marcacao com o lateral, a recompor em transicao defensiva. E isso interessa diretamente a Ancelotti, que historicamente cobra disciplina sem bola de quem joga aberto. Quem viu o Milan campeao em 2003 ou o Real Madrid de tres Champions sabe que o italiano nao tolera ponta passageiro de baliza.
Tecnicamente, o brasileiro tem o conjunto que se espera de um ponta-esquerda moderno: canhoto que ataca pelo lado natural, mas que consegue cortar para dentro e finalizar de direita quando o angulo aparece. Nao e driblador no sentido classico, do drible curto e do corpo. E driblador de espaco, daquele que protege a bola com o corpo enquanto acelera, que usa o primeiro toque para tirar do alcance do marcador. E uma escola mais argentina do que brasileira, curiosamente.
Os tres movimentos que ele repete
- Diagonal por dentro: deixa o corredor para o lateral e ataca o meio-espaço entre zagueiro e volante.
- Sustentacao na linha: cola na linha lateral para alongar o campo e dar largura ao 4-3-3.
- Pressao em curva: parte do lateral para o volante adversario, bloqueando a saida de bola pelo lado.
O que pode pesar contra
O problema mais honesto da candidatura de Martinelli e o ruido sobre regularidade. Ha temporadas em que ele desaparece por sequencias inteiras de jogos, alternando atuacoes decisivas com partidas em que parece desconectado do plano. Parte disso e do sistema do Arsenal, que exige funcoes especificas em jogos especificos. Parte e dele, que ainda nao resolveu por completo a questao da consistencia no ultimo terco. Em uma Copa, onde voce joga seis ou sete partidas no maximo, isso pode ser fatal se o estalo nao vier na primeira fase.
Ha tambem o histórico de pequenas lesoes musculares que tiraram ritmo em momentos-chave nas ultimas temporadas. Nao e um jogador de vidro, longe disso, mas e alguem cuja explosao depende de condicionamento fino. Chegar a junho e julho de 2026 com pernas frescas e tao importante quanto chegar em boa fase tecnica. E aqui mora o risco da convocacao: Martinelli pesado fisicamente e meio jogador. Em ritmo, e arma rara.
Onde ele esta no clube
No Arsenal, Martinelli ocupa o papel de titular consolidado da esquerda, mas com concorrencia real. Arteta nunca escondeu que prefere rodizio nas pontas, e o brasileiro precisou conviver com periodos em que perdeu espaco. Isso o obrigou a amadurecer mais cedo do que o esperado para um jogador da geracao dele. Quando volta a equipe, costuma voltar entregando — e essa capacidade de reagir a perda de status e algo que poucos atacantes jovens demonstram.
O contexto recente em Londres tem sido de protagonismo dentro de um time que disputa Premier League e Champions no limite. Ancelotti certamente conversou com Arteta antes de fechar a lista, e dificilmente convocaria um jogador sem ter referencias internas sobre estado fisico e mental. A escolha tem peso de chancela, nao de palpite.
Como Ancelotti deve usar
A pergunta nao e se Martinelli sera titular, mas em que cenario ele entra como peca-chave. Se Ancelotti optar por um 4-3-3 com Vinicius Junior na esquerda — o caminho mais provavel —, o camisa 19 do Arsenal vira opcao de banco de altissimo valor, jogador para entrar contra defesas ja cansadas no segundo tempo, atacando linhas mais alongadas. Esse e o papel que o Brasil de 2002 deu a quem entrava na vaga de Ronaldinho ou Rivaldo, e que o time de 2014 falhou em estruturar. Ter alguem com a explosao de Martinelli pronto aos 65 minutos pode decidir mata-mata.
O outro cenario, menos provavel mas plausivel, e o de uma formacao com Vinicius mais centralizado, abrindo espaço para Martinelli na esquerda em situacoes especificas — jogos em que o adversario tenta dominar a posse e deixa espaco para correr. Foi mais ou menos assim que Ancelotti usou jogadores como Asensio em momentos do Real Madrid: nao titular fixo, mas titular tatico para confrontos especificos. E uma funcao ingrata para quem quer holofote, mas e exatamente onde Martinelli pode entregar mais com menos.
O recado da convocacao
Convocar Martinelli e, no fundo, admitir que o Brasil precisa de variedade na ponta. Vinicius e um tipo de jogador. Rodrygo, outro. Estevao, outro ainda. Martinelli e o unico do grupo que combina velocidade pura com disciplina tatica de escola inglesa. Em uma Copa disputada nos Estados Unidos, Canada e Mexico, com possiveis jogos contra defesas europeias bem postadas, esse perfil ganha valor estrategico.
O risco de Martinelli e o mesmo risco do Brasil em 2026: depender de estalo individual para resolver jogos que exigem repertorio coletivo. A vantagem, no caso especifico dele, e que o estalo costuma vir quando ninguem mais sabe o que fazer.
Ancelotti nao convocou um titular indiscutivel, e isso e bom. Convocou um jogador funcional, que joga em sistemas exigentes ha anos, que entende o que e disputar competicao longa e que tem o gatilho fisico raro entre os atacantes do elenco. Se a Copa do Brasil em 2026 for decidida por um lance de transicao no segundo tempo de uma quartas-de-final, ha grande chance de Martinelli estar dentro dele. Esse, no fim, e o tipo de aposta silenciosa que define campanhas vitoriosas — e o tipo que Ancelotti construiu carreira fazendo.