Matheus Cunha, o centroavante que pensa: o aposta tática de Ancelotti para 2026
Há um tipo de centroavante que o Brasil aprendeu a desconfiar: aquele que não se contenta com a área. Romário se irritava quando o jogo demorava a chegar. Ronaldo, em 2002, voltava ao meio-campo porque sabia que dali sairia a jogada. Matheus Cunha pertence a essa linhagem incômoda, e é provavelmente por isso que Carlo Ancelotti decidiu, na convocação oficial de 18 de maio, colocá-lo na lista para a Copa do Mundo de 2026 com a camisa 24 e o posto de referência ofensiva alternativa.
A escolha tem um subtexto que precisa ser lido devagar. Ancelotti não é um treinador que cede a modismos, e Cunha não chega ao Mundial como nome consensual. Chega como solução para um problema específico: o Brasil joga melhor quando o centroavante participa da construção, e o italiano parece ter decidido que prefere um nove imperfeito que liga o jogo a um nove clássico que apenas espera a bola.
O que ele entrega
Cunha é, antes de qualquer coisa, um jogador de associação. Lê linhas de passe entre setores, recua para receber de costas, gira o corpo com facilidade incomum para um centroavante de 1,84m e devolve a bola limpa para quem sobe. É a função que Roberto Firmino exerceu por anos no Liverpool e que a Seleção nunca soube exatamente como replicar: a do nove que organiza o ataque sem deixar de ser ataque.
O segundo traço é a movimentação diagonal. Cunha não fica preso ao eixo. Abre para a esquerda, ataca o espaço entre o lateral e o zagueiro, e tem a particularidade tática de fixar a marcação do lado contrário ao da bola. Isso libera o ponta para receber com vantagem, algo que faz toda diferença num esquema em que Vinícius Júnior precisa de espaço para acelerar. Em tese, é o parceiro ideal para o camisa 7 do Real Madrid, e provavelmente esse cálculo pesou na cabeça de Ancelotti.
Há ainda um terceiro elemento, menos comentado e talvez decisivo: a finalização de fora da área. Cunha bate de média e longa distância com naturalidade, em ambas as pernas, com colocação acima da média do que se espera de um centroavante brasileiro. É o tipo de recurso que decide jogos em que o adversário se fecha, situação que a Seleção encontrou contra Bélgica em 2018 e contra Croácia em 2022 sem ter resposta convincente.
O perfil técnico em três pontos
- Associação: recua, pivoteia, devolve. Funciona como ligação entre meio e ataque.
- Movimentação: abre o corredor, fixa marcação, cria espaço para o ponta interno.
- Chute: finalização de média distância com as duas pernas, recurso raro no elenco.
O que pode pesar contra
O ponto frágil é o jogo aéreo defensivo e a presença de área em bolas paradas a favor. Cunha não é um centroavante de cabeça. Em escanteios ofensivos, sua função tende a ser de bloqueio ou rebote, não de ataque ao primeiro pau. Numa Copa em que se decide muito em bola parada, isso obriga Ancelotti a montar o esquema de set-pieces sem contar com ele como finalizador aéreo, o que reduz uma das ferramentas disponíveis.
O segundo ponto é o histórico de regularidade. Cunha teve trechos brilhantes e trechos discretos ao longo da carreira na Europa, com passagens por Alemanha, Espanha e Inglaterra antes de chegar ao United. O jogador que aparece nos grandes jogos não é sempre o mesmo que aparece em sequência de meio de temporada, e uma Copa exige consistência em uma janela curta. É o tipo de risco que se aceita quando se acredita no teto, mas o teto precisa aparecer em junho.
Onde ele está no clube
No Manchester United, Cunha vive a fase de jogador maduro e estabelecido. Chegou como contratação cara, com responsabilidade de ser referência ofensiva num elenco em reconstrução, e tem ocupado a função de centroavante móvel num time que oscila entre 4-2-3-1 e 4-3-3. A escolha do United por ele não foi acidental: o clube procurava exatamente o perfil de nove que participa do jogo coletivo, em oposição ao centroavante isolado que dominou a tradição inglesa por décadas.
Na liga inglesa, esse modelo de centroavante tem sido referência tática em times que jogam com posse organizada. Cunha encaixa nessa lógica e tem mostrado adaptação à intensidade física da Premier League, fator que costuma derrubar jogadores brasileiros nos primeiros meses. O contexto de clube, portanto, joga a favor: ele chega à Copa com ritmo competitivo de alto nível, algo que nem todos os convocados podem dizer.
Como Ancelotti deve usar
A hipótese mais provável é que Cunha não comece como titular absoluto, mas que tenha papel claro no plano de jogo. Ancelotti gosta de variar formações conforme o adversário, e o brasileiro encaixa em pelo menos três cenários distintos. Num 4-3-3 tradicional, ele é o nove que recua para criar superioridade no meio, abrindo espaço para Vinícius e Rodrygo cortarem por dentro. Num 4-4-2 contra adversários mais físicos, pode formar dupla com um centroavante de área, ocupando a função de segundo atacante. E num 4-2-3-1 reativo, contra europeus de alto nível em mata-mata, pode entrar no segundo tempo como peça de transição rápida, função em que rende bem por causa do chute de fora.
O cálculo de Ancelotti parece ser o de ter, no mesmo elenco, opções qualitativamente diferentes para o posto de centroavante. Cunha é a versão associativa, a peça que permite ao Brasil jogar de forma posicional contra blocos médios. É exatamente o tipo de função que a Seleção sentiu falta em 2014 contra Holanda, em 2018 contra Bélgica e em 2022 contra Croácia, jogos em que o ataque travou por ausência de articulação entre os setores.
O lugar de Matheus Cunha na lista de Ancelotti não é o de unanimidade nem o de aposta romântica. É o de jogador que resolve um problema específico de um time específico num contexto específico, e essa é, no fim das contas, a definição mais honesta do que se espera de um convocado para Copa do Mundo. Se o Brasil jogar bem em 2026, é provável que Cunha esteja no centro do motivo, mesmo que não seja o nome na manchete. Convocações que envelhecem bem costumam ser assim.