Neymar na lista de Ancelotti: o reencontro com a Copa que parecia perdida
A convocação de Neymar para a Copa de 2026, anunciada por Carlo Ancelotti em 18 de maio, encerra um ciclo de incerteza que se arrastava desde a lesão de ligamento sofrida pelo atacante quando ainda defendia o Al-Hilal. Era uma dúvida que dividia o país em dois campos quase irreconciliáveis. De um lado, quem entendia que o camisa 10 já não tinha lugar num projeto que precisa olhar para frente. Do outro, quem insistia que uma Seleção sem ele perderia justamente a faísca que falta há três Copas. Ancelotti, fiel ao pragmatismo que o define, escolheu não escolher: levou Neymar, mas o levou em outros termos.
O perfil do jogador que embarca para a Copa norte-americana é diferente do que protagonizou as quartas contra a Bélgica em 2018 ou a despedida silenciosa contra a Croácia em 2022. É um atleta que voltou ao Santos para recuperar minutos, reorganizou o corpo longe da vitrine europeia e, no processo, parece ter reaprendido a jogar com economia. A pergunta deixou de ser se Neymar ainda decide. Passou a ser quanto Ancelotti consegue extrair dele sem comprometer o equilíbrio do time.
O que ele entrega
Mesmo em rotação reduzida, Neymar continua sendo o jogador brasileiro com a leitura de jogo mais refinada nos últimos trinta metros. A finta curta em espaço apertado, a capacidade de atrair dois marcadores e descarregar com precisão, o passe na diagonal para o lateral em profundidade — tudo isso permanece intacto. O que mudou, e mudou para melhor, é a economia. Ele já não tenta resolver sozinho cada lance. Aceita o tabelinha, devolve de primeira, joga mais como organizador avançado do que como driblador compulsivo.
Taticamente, ele entrega algo raro neste elenco: um jogador capaz de funcionar como pivô em três quartos de campo. Em construções pelo lado esquerdo, oferece a linha de passe entre linhas que Vinícius Júnior, mais vertical, não costuma sustentar. Quando a Seleção precisa segurar a bola para descansar, é dele a referência de posse curta. Em transições, mesmo sem a explosão de 2014, mantém o senso de quando acelerar e quando segurar — recurso que faltou amargamente contra a Croácia.
Há ainda o componente intangível, que normalmente entra como cliché mas aqui merece registro. Neymar é o único jogador do grupo com três Copas no currículo. Em uma chave inicial que pode trazer adversários europeus de primeira linha já na segunda fase, esse repertório de partidas eliminatórias tem valor concreto, sobretudo num vestiário em que metade do plantel nunca passou de uma fase de grupos em torneio adulto.
O que pode pesar contra
O risco físico é o ponto óbvio e inegociável. A reconstrução do ligamento foi delicada, e o histórico de lesões musculares do jogador, somado à idade que se aproxima dos trinta e cinco, exige uma gestão de minutagem que nenhuma comissão técnica brasileira precisou administrar em Copas anteriores. Ancelotti vai ter de decidir, jogo a jogo, se Neymar começa, se entra no segundo tempo ou se descansa. É uma variável que pode desequilibrar a hierarquia interna se mal calibrada.
Há também o risco competitivo. Vinícius Júnior, Rodrygo e Endrick formam um trio jovem que precisa de espaço e protagonismo. Em alguns desenhos, Neymar e Vinícius disputam a mesma zona do campo, e a convivência tática entre os dois nunca foi resolvida de maneira limpa nas últimas convocações. Se Ancelotti não definir com clareza quem ocupa o corredor esquerdo e quem flutua por dentro, o time corre o risco de duplicar funções e perder largura.
Onde ele está no clube
O retorno ao Santos foi, antes de tudo, uma decisão emocional. Mas o efeito esportivo acabou sendo mais profundo do que se previa. Longe da pressão do futebol europeu e do escrutínio que o acompanhou nos anos de Paris, Neymar reencontrou um ambiente onde pode ditar o ritmo dos treinos sem ter de provar nada a cada minuto. O Santos, time em reconstrução no Brasileirão, organiza-se taticamente em torno dele sem cobrar a intensidade defensiva que clubes da Premier League ou da La Liga exigiriam.
Esse contexto produziu um Neymar mais conservador no uso do corpo e mais generoso na distribuição. Ele tem aparecido recuado para organizar a saída de bola, função que evitava na Europa, e tem chegado à área menos vezes — mas com mais critério. É um ajuste que combina com o desenho que Ancelotti tende a propor para a Seleção: não é mais o homem que vai liderar a tabela de assistências da Copa, mas é o que pode definir os dois ou três lances em que a partida muda.
Como Ancelotti deve usar
O cenário mais provável coloca Neymar como meia-atacante pela esquerda num 4-2-3-1, com liberdade para flutuar por dentro enquanto Vinícius Júnior segura a largura. É o desenho que o italiano cultivou no Real Madrid com Modric nos últimos anos: um jogador veterano em função reduzida, mas com licença criativa total na zona em que decide. Casemiro e um segundo volante de marcação dariam a cobertura defensiva que libera o camisa 10 de tarefas de recomposição.
Em jogos contra adversários que se fecham, Ancelotti pode adiantar Neymar como segundo atacante em um 4-4-2 losango, formação que ele usou ocasionalmente no Bayern e no Napoli. Nesse desenho, o brasileiro joga atrás do centroavante — Endrick ou Pedro — e ataca os espaços entre zagueiro e volante adversário. É a configuração que melhor explora o que sobrou da explosão dele em distâncias curtas. Em partidas de maior exigência física, é razoável esperá-lo no banco, como recurso de quarenta minutos finais quando o time precisar de um decisor.
A escolha de Ancelotti não foi nostálgica nem covarde. Foi uma aposta calculada de que Neymar, em versão reduzida, ainda oferece mais do que qualquer alternativa no mesmo posto. Não é o protagonista que o Brasil esperou em 2014 nem o herói trágico de 2022. É um jogador que aceita ser peça, e que talvez por isso possa ser, finalmente, decisivo. A Copa dirá se a aposta envelhece bem. O que já se sabe é que, depois de quatro anos de ruído, a relação entre Neymar e a Seleção volta a um ponto de equilíbrio possível.