Vinicius Junior na Copa 2026: o eixo da Selecao de Ancelotti pela esquerda

Vinicius Junior chega a Copa de 2026 como o jogador brasileiro mais decisivo do ciclo, e isso e mais um diagnostico do que um elogio. A Selecao que Carlo Ancelotti convocou em 18 de maio nao tem um centroavante de classe mundial em momento absoluto, nao tem um meia-armador no padrao europeu de Kaka em 2007 e nao tem um lateral-direito que resolva sozinho. Tem Vinicius pela esquerda, e e em torno dele que o italiano vai desenhar quase tudo o que pretende fazer no Mexico, nos Estados Unidos e no Canada.

O Brasil vinha de uma travessia ingrata desde a eliminacao para a Croacia em 2022. Trocou de tecnico tres vezes, viu o ciclo sul-americano se arrastar e nunca encontrou a coluna vertebral que o time de Tite tinha em 2018. Ancelotti chega para resolver justamente isso: organizar um time que, ate aqui, dependia do talento individual sem repertorio coletivo. E o talento mais maduro que ele tem em maos atende pelo numero 7.

O que ele entrega

Vinicius e, hoje, o ponta-esquerda mais completo do futebol europeu. Isso nao se sustenta por estatistica isolada, mas pela combinacao de tres atributos que raramente convivem no mesmo jogador: aceleracao em espaco curto, capacidade de drible de confronto no um-contra-um e leitura para escolher quando atacar a linha de fundo, quando cortar para o meio e quando segurar a posse para esperar o lateral subir. E uma sintese tecnica que, no Brasil, talvez so Ronaldinho Gaucho em 2005-2006 e Neymar em 2015 tenham apresentado com regularidade comparavel.

O ponto que costuma passar despercebido e o trabalho sem bola. Vinicius aprendeu, sob Ancelotti no Real Madrid, a fechar a saida do lateral adversario na pressao alta e a recuar para a linha de quatro defensiva quando o time perde a posse no terco ofensivo. Nao e um marcador refinado, mas e um jogador que entendeu o que se espera dele numa equipe que joga em bloco. Para um ponta brasileiro, isso e quase uma anomalia historica.

Ha tambem um dado qualitativo importante: ele virou um jogador de finais. Os dois titulos da Champions League conquistados pelo Real Madrid nos ultimos ciclos passaram pela sua bota em momentos de jogo eliminatorio, e essa rotina de decidir partida grande e algo que nenhum dos seus companheiros de ataque na Selecao tem na mesma escala.

O que pode pesar contra

O Vinicius da Copa nao e mais o garoto de 2022. Ele chega com mais responsabilidade, mais marcacao individual programada pelos adversarios e mais desgaste fisico acumulado de temporadas longuissimas no Real Madrid. Ha um risco objetivo de chegar ao torneio com a bateria mais baixa do que o ideal, especialmente se o Madrid for longe na Champions e na La Liga ate o fim de maio.

O outro ponto sensivel e o controle emocional. Vinicius tem um historico de provocacao reciproca em jogos tensos, e a Copa do Mundo vai oferecer uma serie de duelos onde adversarios vao tentar tira-lo do serio deliberadamente, como ja viu em classicos espanhois e em alguns jogos pela Selecao. Ancelotti precisa de um Vinicius que responda dentro da partida com futebol, nao com reacao. E uma area em que ele evoluiu, mas que ainda nao esta resolvida.

Onde ele esta no clube

No Real Madrid, Vinicius e o referencial ofensivo permanente do lado esquerdo, com liberdade para flutuar entre a faixa e o meio quando Jude Bellingham se posiciona como segundo atacante. Ele divide protagonismo com Kylian Mbappe, que ocupa o centro do ataque, e esse rearranjo o obrigou a refinar a movimentacao sem bola, ja que nao tem mais o monopolio do corredor esquerdo que tinha na era de Karim Benzema.

O ajuste foi bem-sucedido em termos taticos, ainda que tenha gerado discussao publica sobre quem e o maestro do time. O que interessa para a Selecao e o seguinte: Vinicius esta acostumado a jogar num time que controla a posse, ataca posicionalmente e exige variacao de altura na entrega do passe. Esse repertorio existe nele, e Ancelotti vai aproveitar.

Como Ancelotti deve usar

O desenho mais provavel da Selecao e um 4-3-3 com Vinicius aberto pela esquerda, um centroavante de referencia e um terceiro atacante movel pela direita. Nesse esquema, o lateral-esquerdo precisa dar profundidade nas costas dele, porque Vinicius vai cortar para dentro com frequencia para criar a linha de passe diagonal. E o mesmo movimento que ele faz no Madrid quando Ferland Mendy ou um substituto sobe pela ponta.

Ha uma variante interessante: um 4-2-3-1 com Vinicius como segundo atacante e um meia-armador atras. E o desenho que Ancelotti usou em momentos especificos no Real Madrid e que pode aparecer contra adversarios que se fecham. Coloca Vinicius mais perto da area, reduz o trajeto ate o gol e aproveita a capacidade dele de finalizar de dentro do espaco reduzido. O risco e perder largura, e ai depende de quem joga ao lado.

O Brasil de 2026 nao se parecera com o de 2002, que tinha tres atacantes de elite simultaneos. Vai se parecer mais com o de 1994, em que um jogador define o eixo ofensivo e o resto da equipe se organiza para servi-lo. So que esse jogador, agora, e um ponta, nao um centroavante.

O que Ancelotti precisa decidir e quem joga ao lado de Vinicius para potencializa-lo. Um centroavante de area pura libera o ponta para flutuar; um centroavante movel disputa o mesmo espaco. A escolha do nove vai definir o quanto Vinicius vai render no torneio, e essa e uma das principais incognitas da convocacao.

Fechamento

Vinicius Junior chega a sua segunda Copa do Mundo com a obrigacao de transformar talento em titulo, e ha uma diferenca importante em relacao a 2022: agora ele e o jogador em torno de quem o time foi montado, nao mais um dos talentos jovens que Tite incorporava. A maturidade que ele demonstrou no Real Madrid sob Ancelotti sugere que esta pronto para essa responsabilidade. O que falta saber e se o resto da Selecao, e o proprio fisico dele, estarao a altura do plano. A diferenca entre um quinto titulo e mais um retorno antecipado pode passar, em grande medida, pelo que acontecer com o numero 7 entre junho e julho.