Quem ficou de fora dos 26 e por que faz sentido
Toda convocacao de Copa do Mundo se le melhor pelo avesso. A lista oficial diz quem vai; a lista invisivel, a dos cortados, e a que entrega o projeto. Carlo Ancelotti anunciou seus 26 no dia 18 de maio, e a leitura mais honesta do que ele pretende fazer nos Estados Unidos esta justamente nos nomes que ficaram em casa. Ha logica, ha continuidade, ha algumas escolhas duras. E ha, sobretudo, uma identidade que o italiano vem desenhando desde que assumiu, e que ficou impossivel de ignorar quando a lista foi lida em voz alta.
Esse ensaio nao vai chorar pelos ausentes. Vai tentar entender por que cada bloco de corte faz sentido dentro do conjunto que Ancelotti escolheu construir, e onde a aposta pode dar errado.
O retrato dos 26: o que a lista esta dizendo
Antes de discutir quem ficou de fora, e preciso enxergar a moldura. Ancelotti convocou tres goleiros experientes (Alisson, Ederson e Weverton), seis zagueiros, cinco laterais, seis meio-campistas e o restante distribuido no ataque. O equilibrio numerico ja diz algo. Ha mais zagueiros do que o normal das ultimas Copas, ha menos volantes puros, e o setor ofensivo carrega uma mistura curiosa entre veteranos (Neymar), juventude crua (Endrick, Rayan) e jogadores de fase (Matheus Cunha, Luiz Henrique).
O italiano nao escondeu, ao longo dos amistosos, que pretende jogar com linha de quatro, com um meio compacto e dois pontas que sustentem amplitude. A lista respeita esse desenho. E os cortes, todos eles, derivam dessa coerencia.
O bloco da defesa: a era dos laterais classicos acabou
O nome que mais vai doer e o de Vanderson, que vinha sendo titular no Monaco. Ancelotti optou por Wesley e Danilo na direita, deixando o setor com um perfil de construcao e um perfil de equilibrio. A escolha por Douglas Santos na esquerda como segundo nome, ao lado de Alex Sandro, sinaliza outra coisa: o tecnico privilegiou jogadores que dao saida limpa de bola sob pressao alta. Quem viu a Selecao em 2022, contra a Croacia, sabe o problema que e nao ter como sair de tras quando o adversario fecha as linhas centrais.
Na zaga, o corte sentido foi o de Eder Militao. Ainda que ele venha sendo titular do Real Madrid, a recuperacao de lesoes recentes pesou. Ancelotti, que o conhece como ninguem, preferiu poupa-lo do desgaste de uma Copa intensa em pleno verao americano. No lugar, manteve Bremer, Marquinhos, Gabriel Magalhaes, Roger Ibanez e Leo Pereira, um quinteto que mistura velocidade e jogo aereo.
- Vanderson: ficou de fora porque o tecnico priorizou laterais que ofereciam mais variacao tatica.
- Militao: historico recente de lesoes fez o tecnico optar pela seguranca.
- Beraldo: bom momento no PSG, mas o quinteto de zaga ja estava fechado.
A linha defensiva nao e excitante. Tampouco precisa ser. O que ela precisa e nao quebrar, e o time montado por Ancelotti foi escolhido para isso.
O meio de campo: por que Andre e Joao Gomes ficaram de fora
Aqui mora a discussao mais interessante. Andre, do Wolverhampton, e Joao Gomes vinham sendo nomes habituais nas listas anteriores. A ausencia dos dois nao e gratuita. Ancelotti convocou Casemiro, Bruno Guimaraes, Danilo, Fabinho, Paqueta e, como peca hibrida, Joelinton (que aparece tambem no ataque em alguns desenhos). Cinco volantes mais um meia-armador.
O recado e direto. O italiano nao quer dois cachorros de guarda no meio. Quer um (Casemiro ou Fabinho) com dois construtores ao lado (Bruno e Paqueta). Andre e Joao Gomes oferecem perfil parecido entre si, e o tecnico decidiu nao gastar duas vagas em jogadores que se sobrepoem. A escolha por Fabinho, mais velho, e a confissao de que o que ele busca e leitura de jogo, nao motor.
Comparacao historica vale: em 2018, Tite levou Renato Augusto e Fernandinho. Tinha dois construtores e um cao-de-guarda. Em 2022, o erro foi inverter: muito musculo, pouco passe, e a Selecao penou para criar contra Croacia e Belgica nao convocada. Ancelotti parece ter aprendido a licao na pele dos antecessores.
O ataque: o silencio de Antony e Richarlison
O corte mais barulhento foi o de Antony. O ponta vinha de uma temporada de retomada no futebol espanhol, e havia expectativa de que o passado com o tecnico em Madrid pesasse a favor. Nao pesou. Ancelotti preferiu Luiz Henrique pela direita como reserva de Raphinha, valorizando o jogador do Botafogo pelo drible em velocidade e pela capacidade de jogar sem bola.
Richarlison e o caso oposto. O atacante do Tottenham nao vinha entregando regularidade, e a Selecao tem hoje opcoes mais ajustadas para a funcao que ele cumpria em 2022. Igor Thiago, do Brentford, e a aposta para o papel de centroavante alternativo: mais movel, melhor de cabeca, mais util em transicoes longas. Endrick segue como o nove do futuro imediato, mesmo com o uso esporadico no Real Madrid.
O nome de Pedro, do Flamengo, era esperado por boa parte da imprensa. Ancelotti optou por nao convoca-lo. A justificativa tacita esta no perfil: a Selecao ja tem Endrick e Igor Thiago como centroavantes, e Matheus Cunha funciona como falso nove em alguns desenhos. Tres camisas 9 puros seriam um luxo que o tecnico decidiu nao se dar.
Neymar: a decisao que define o projeto
Falar dos cortes sem passar pela inclusao de Neymar seria desonesto. Ele esta na lista, ele e quem ele e, e o tecnico bancou. A presenca dele explica varios cortes: Antony, Pedro, parcialmente Vanderson. Quando se carrega Neymar, carrega-se tambem o ecossistema de jogadores que precisam funcionar em torno dele. Paqueta no meio, Vinicius por dentro, Raphinha aberto. O time inteiro se reorganiza.
Vale lembrar 2014. Felipao montou aquela Selecao em torno de Neymar como referencia emocional e tatica, e quando ele saiu, no jogo contra a Colombia, o time desabou contra a Alemanha porque nao tinha plano B real. Ancelotti, ao escolher Endrick, Vini Jr. e Matheus Cunha como pecas que podem assumir o protagonismo, parece estar tentando nao repetir o erro. A duvida e se, no calor da Copa, ele tera coragem de tirar o camisa 10 do esquema quando precisar.
Os jovens que entraram: Rayan e a logica do longo prazo
Convocar Rayan, do Vasco, com tao pouca experiencia em alto nivel, e uma decisao que merece destaque. Faz par com a aposta em Endrick e completa um eixo geracional. Ancelotti nao esta apenas pensando em junho e julho de 2026. Esta plantando os nomes que vao sustentar a Selecao ate 2030.
Isso explica, por exemplo, por que Philippe Coutinho ou Roberto Firmino, que voltaram a ter alguma minutagem em seus clubes, nem foram cogitados. O ciclo deles acabou. A Copa de 2026, na visao do tecnico, pertence a quem chega forte e a quem chega cedo. Nao a quem volta.
Comparacao com 2002 e 2022
A Selecao campea em 2002 tinha um trio ofensivo (Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho) que dispensava qualquer discussao tatica. Ao redor deles, Felipao montou uma estrutura defensiva pragmatica. A logica era: deixe os tres jogarem, proteja-os.
Em 2022, Tite tentou diluir a responsabilidade ofensiva em sete ou oito jogadores. Funcionou ate certo ponto, e desmoronou nos penaltis contra a Croacia, quando a falta de hierarquia ficou exposta. Ancelotti escolheu um caminho hibrido. Ha hierarquia (Vini, Raphinha, Neymar quando inteiro), mas ha substitutos com perfis distintos para nao deixar o time refem de um plano unico.
E uma Selecao desenhada para vencer jogos feios. Se for preciso ganhar do Uruguai numa quarta de final por 1 a 0, gastando bola no meio com Casemiro e Bruno Guimaraes, esse time consegue. Se for preciso atropelar um adversario menor na fase de grupos, tambem.
O que pode dar errado
O risco mais evidente esta na lateral. Sem Vanderson, e com Danilo ja em fim de ciclo, qualquer lesao em Wesley deixa o setor frageis. O segundo risco e a dependencia emocional de Neymar. O terceiro, e talvez o mais subestimado, e a falta de um meio-campista que jogue entre linhas, um numero 10 puro. Paqueta cumpre parte da funcao, mas oscila. Se ele apagar, a Selecao volta a depender exclusivamente dos pontas para criar.
Mas analisar uma lista de Copa antes da bola rolar e sempre um exercicio de aposta. O que se pode afirmar e que Ancelotti entregou uma lista coerente, com cortes explicaveis, sem politica e sem favores. Para uma Selecao que vinha de tropecos seguidos em decisoes, isso ja e patrimonio.
O resto vai ser decidido em campo, como sempre foi.